PODE CORROMPER

 


Apertados. Colados como siameses ou defeituosos pela intromissão de um no outro, o outro dentro de um e este mimetizado de outro, uma amálgama incompreensível e desajeitada, descomposta, pele sobre pele, depois uma só pele fundida de tão acariciada plasmada em derme única, beijo engolido de boca, de tactos vertidos para dentro de um só coração. Apertados e em uníssono. Incompreensível como o toque pode corromper.
 

VIDA &MORTE DE UM AFAGO

 


No abraço aqueceram-lhe o coração, fizeram esquecer as saudades de casa, dos rostos de aconchego. Trouxeram novos rumos à pele que se arrepiou a portos inseguros desvairados de tempestades por conhecer na descoberta do amor. Amores. Tactos da loucura em olhos cerrados entregues na confiança do saber. Querer. Saber. Ficar e construír. Nos abraços que deu aqueceu corações que de si saíram, um, outros, outros, o seu maduro e calmo até soprado como a chama de uma vela se cerrar como olhos à descoberta de outro tacto. Tactos em eterna presença. Por quem dela nunca esqueceu.
 

PERTO E AUSENTE

 


Lembro-me do gesto. De quando estavas perto de mim e te encolhías na procura do encaixe do meu corpo, braços justos ao tronco no encosto do meu, vinhas e apertava-te ao calor junto, uma fusão instantânea como um cadinho dourado. Depois entrelaçava os meus braços nas tuas costas e no teu pescoço e assim ficávamos no silêncio sem que a respiração se escutasse, podíamos estar mortos, que só por dentro nos sabíamos correr na loucura de qualquer coisa que nem sequer sabíamos como pôr um nome.
Lembro-me do gesto. Mas não me lembro como deixaste de estar perto.

A ALMA DA PELE



Repousa em mim o teu perfume, o teu querer, os teus sonhos, deixa que eu cuide e guarde do teu corpo, a alma essa deixa-a livre para onde quiser ir, que a amo tão profundamente que nunca tería a pretensão de a querer para mim. Basta a comunhão de sermos um quando a pele fala e se difunde no toque, calando o silêncio.

AO PEITO

 



Conciliação do corpo e da essência, esquecimento do pecado primeiro, afoga a saudade no aconchego da carne interior que lateja todo o sentir invisível, maior, toque de poesia no silêncio apertado em que as palavras ficam guardadas até nada se saber mais dizer.
Abraço.
Florescências do peito.
 
 

TOQUE DE ALMA

 


Que fizessem do riso dos outros a maior companhia já que dos outros não precisavam de companhia maior, só para os outros eram dois a mais, coisa sem jeito, embate a contrapasso, neles se juntavam mais que dois, um só num toque de peito, duas mãos numa de jeito, um baile de sentir profundo.
 
 

LINHA DE IMPRESSÃO

 


Confia a tua pele à minha e nas linhas de ambos deixa que se misturem novas dedadas, impressões que fazem impressão aos mortais, coisa estranha para quem nunca soube o que é a dança.
 
 

O TOQUE E O TACTO



 
O que resta do toque nem sempre é o tacto. Tantas as vezes, a maior das vezes nem um dedo encosta a superficie da pele para sentir-lhe a vida ou o palpitar da emoção por apenas se sentir tocada por outra e ainda outra e mais outra, uma espécie de contágio de vidas.
Não.
O que resta do pouco toque são os cortes nas palavras ou o amargo das palavras ou ainda o que ficou por dizer ou ainda o que se espera que o outro diga.
Um arrepio.
Não um aceno de adeus.

ORAÇÃO



 
Nós, sempre dois, sempre um, as tuas mãos como um xaile, como um amigo, um bem-querer sempre comigo sempre tão perto, um mais que tudo sempre presente, as tuas mãos em mim junto ao meu peito a sentir o quanto quero ter-te sempre, um lacre, uma fita, uma corrente, esta coisa sempre envolvente que não se vê e só se sente, um fogo imenso e sempre aceso, este sempre que é tudo e é quase nada, são mãos que tenho em mim nas tuas, vida que sinto num só abraço.
 
 

LINHAS SEM HISTÓRIA


 
 
Cada dia que passa vejo menos mãos descobertas.
Andam encolhidas, recolhidas, projectadas em fundos de bolso, traçadas em covas de sovaco, apertadas como ganchos sob cotolos bicudos, pela metade como cotos em mangas puxadas à força para as tapar, ocupadas detrás de máquinas que soam apitos.
Deixei de ver mãos a acenar para mim. A chamarem-me. Até a dizerem adeus naquele leve agitar. Mãos que me tocavam na ponta dos dedos para me acordar do pesadelo. Mãos que içavam a rede do pescado. Mãos com leques, mãos de palmas, mãos abertas, mãos com linhas, mãos com histórias de vida.
 
 

SENTIR-ME PELE




 
Este sentido que me fecha e desenha, relevo dos que de olhos fechados e sorriso leve tiverem dom de querer ter tempo e dor na paciência de me querer saber ler, dei aval de me tocarem e do quente se aquecerem. Arrepiarem-se em mim, que arrepiada o toque do coração mais seiva me deu às palavras.

UM ANO DE SENTIRES



Toquei em todos. Gosto, quero e preciso de todos, seccionados ou mesclados em composição enriquecida pela poesia quero sentir em mim esta vontade bárbara na ponta dos dedos como um formigueiro que se alteia em subterrâneos por escavar. Toca-me e descubro-me.

DO TOQUE DE QUEM DANÇA



Nada na terra se iguala ao toque do par que chora compassos a tempos moídos no relógio do homem. Não há terra, não há. Não há homem nem mulher. Há amantes que falam nas pautas de um doido que um dia olhou a Lua, furou-a no dedo e aprendeu a fazer poesia.

NAQUELE DIA



Não se esquecera daquele dia, aliás muitas das vezes a sensação que tinha é que o tempo houvera estacado naquele dia formando uma barreira entre o até aquele dia e o após. Devía ser porque naquele dia fora verdadeiramente feliz. Nunca soube explicar porquê. Só sabía que quando o coração se angustiava na solidão dos muitos anos passados ou pressentía que a vida se aproximava a passos curtos para ter a última conversa com ele pegava na fotografia e bastava-lhe amornar a mão naquela imagem infantil para tudo se aquietar. E regressava àquele instante de risos e companhia, de palmas e gritos agudos em que o bastante para se dar e receber estava ao alcance do toque. Vamos ser amigos para sempre!

BRINCAR


Talvez as sombras se
QUEIRAM
antes de nós

AS LINHAS



É calando-me que melhor falo de ti. Do teu pescoço sob a palma da minha mão, de todas as irregularidades do que ele me disse ao sentir as linhas do meu apertar na faísca incendiária que resvalou dos meus dedos.


Ainda trago pele de ti agarrada na queimadura do encontro. Do que foi dito não me lembro, provavelmente nem tería importância, ruído de fundo, abstracto, relevante mesmo foi o abraço na polpa do teu pescoço.

CATIVARES



TOQUES DE (TANTO) AMOR

SÓ PELE



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Acomodados entre braços e pernas sentiram o quanto se aquecíam e mimetizavam nas emoções guardadas por dentro, agora era só pele, pele na pele, pele de roupa, o perigo dos sentires a roçar entre as cálidas curvas e pregas ajeitadas como um tecido perfeito, impossível mentir, disfarçar as linhas arrepiadas ou a expansão do prazer em cada toque inevitável.

TOCAR E FINGIR


Na ponta dos dedos perfumados a Chanel nº5 fingiu que era feliz, fingiu que o amor a molhava.

O PRÉMIO


Rangía a orquestra no desafinado gingar de acordes que aturdíam o espaço, tudo ao redor agitava brilhos e formas. O par nº 15 chegou ao centro do salão e segurou as mãos suadas. Ele olhou-a na direcção do coração e ela na veia do pescoço dele. Latejou a música, doeram os sentidos e no agarrar do ritmo um do outro ganharam. A si, nessa noite.