PARCERIAS

 

 
Distintas uma da outra mas tão gémeas na semelhança como necessárias, enroscaram-se como duas serpentes em ritual de acasalamento. Retorceram-se. voltearam e depois independentes como se nunca houveram tomado conhecimento, seguiram em caminhos paralelos mas sempre distintos, uma à esquerda e a outra na direita para logo em instantes de aflição se reconhecerem na irmandade.

CORPOS DE BAILE

 

 
Ajeitaram-se corpo a corpo como se não tivessem peso, a roupa a deslizar na seda do movimento compassado pela música e o toque dos dedos na cegueira do inato desejo. Uma volta, duas, borboleta doida à volta da luz mesmo sabendo que a morte queima na aproximação do que se exala como tóxico na pele que se adivinha em asas que se despem. Talvez a música fosse a droga, ou o cheiro do cómodo já velho de outros que assistira na mesma ânsia de afagos na alma enganando actores a acharem-se dançarinos apaixonados pela arte, talvez fosse cousa mais simples como dois procurando a mão quente, o silêncio de folga, o reflexo outrem que não a sombra própria.

ACTO ÚNICO

 


Tocaram-se como homem e mulher
Tiveram-se como deuses
Inventaram a palavra
Disseram silêncio

SURREALISTA

 


Toca-me sentidamente na profundidade da ressonância do emotivo capital
 
Dancemos
 
Surrealisticamente
 
no corpo entranhado que se esquece de ser corpo para se dar ao som dos silêncios batidos no ritmo do passo oferecido
 
 
toque
toca-me
 
 

EM SEGREDO

 


Tomou-o nos braços. Sentiu-lhe a macieza da pelagem entre os dedos, pequenos montes de gordura pelas guloseimas fora de refeição, o agrado do quente junto ao seu peito, à barriga. Ajeitou-o mais a si e encostou o rosto ao focinho húmido, um ronronar devolvido tirou-lhe um sorriso silencioso, afagou-o na retribuição do momento de paz e entrega. Segredou-lhe amo-te no pêlo farto e sedoso e o gato anichou-se ao pescoço dela. Há muito tempo que ninguém a abraça, há tanto tempo que ninguém lhe respira sobre o peito, lhe responde quando profere palavras em segredo.

SEJAMOS

 

 
Sejamos mito, estrela cadente, ascendente, fotografia, poster de adolescente, abraço imitado, orgia inventada, conceito em divã de análise, sejamos dois, sejamos um só, e depois cada um por si quando desfeitos desta condição de precisados da pele unida e amassada de cozinhada na condição de amantes e até sublimados naqueles que adivinhos nunca saibam por que passámos até desligar o que sentimos no verdadeiro amor de um simples abraçar da despedida.
 

PODE CORROMPER

 


Apertados. Colados como siameses ou defeituosos pela intromissão de um no outro, o outro dentro de um e este mimetizado de outro, uma amálgama incompreensível e desajeitada, descomposta, pele sobre pele, depois uma só pele fundida de tão acariciada plasmada em derme única, beijo engolido de boca, de tactos vertidos para dentro de um só coração. Apertados e em uníssono. Incompreensível como o toque pode corromper.
 

VIDA &MORTE DE UM AFAGO

 


No abraço aqueceram-lhe o coração, fizeram esquecer as saudades de casa, dos rostos de aconchego. Trouxeram novos rumos à pele que se arrepiou a portos inseguros desvairados de tempestades por conhecer na descoberta do amor. Amores. Tactos da loucura em olhos cerrados entregues na confiança do saber. Querer. Saber. Ficar e construír. Nos abraços que deu aqueceu corações que de si saíram, um, outros, outros, o seu maduro e calmo até soprado como a chama de uma vela se cerrar como olhos à descoberta de outro tacto. Tactos em eterna presença. Por quem dela nunca esqueceu.
 

PERTO E AUSENTE

 


Lembro-me do gesto. De quando estavas perto de mim e te encolhías na procura do encaixe do meu corpo, braços justos ao tronco no encosto do meu, vinhas e apertava-te ao calor junto, uma fusão instantânea como um cadinho dourado. Depois entrelaçava os meus braços nas tuas costas e no teu pescoço e assim ficávamos no silêncio sem que a respiração se escutasse, podíamos estar mortos, que só por dentro nos sabíamos correr na loucura de qualquer coisa que nem sequer sabíamos como pôr um nome.
Lembro-me do gesto. Mas não me lembro como deixaste de estar perto.

A ALMA DA PELE



Repousa em mim o teu perfume, o teu querer, os teus sonhos, deixa que eu cuide e guarde do teu corpo, a alma essa deixa-a livre para onde quiser ir, que a amo tão profundamente que nunca tería a pretensão de a querer para mim. Basta a comunhão de sermos um quando a pele fala e se difunde no toque, calando o silêncio.

AO PEITO

 



Conciliação do corpo e da essência, esquecimento do pecado primeiro, afoga a saudade no aconchego da carne interior que lateja todo o sentir invisível, maior, toque de poesia no silêncio apertado em que as palavras ficam guardadas até nada se saber mais dizer.
Abraço.
Florescências do peito.
 
 

TOQUE DE ALMA

 


Que fizessem do riso dos outros a maior companhia já que dos outros não precisavam de companhia maior, só para os outros eram dois a mais, coisa sem jeito, embate a contrapasso, neles se juntavam mais que dois, um só num toque de peito, duas mãos numa de jeito, um baile de sentir profundo.
 
 

LINHA DE IMPRESSÃO

 


Confia a tua pele à minha e nas linhas de ambos deixa que se misturem novas dedadas, impressões que fazem impressão aos mortais, coisa estranha para quem nunca soube o que é a dança.
 
 

O TOQUE E O TACTO



 
O que resta do toque nem sempre é o tacto. Tantas as vezes, a maior das vezes nem um dedo encosta a superficie da pele para sentir-lhe a vida ou o palpitar da emoção por apenas se sentir tocada por outra e ainda outra e mais outra, uma espécie de contágio de vidas.
Não.
O que resta do pouco toque são os cortes nas palavras ou o amargo das palavras ou ainda o que ficou por dizer ou ainda o que se espera que o outro diga.
Um arrepio.
Não um aceno de adeus.

ORAÇÃO



 
Nós, sempre dois, sempre um, as tuas mãos como um xaile, como um amigo, um bem-querer sempre comigo sempre tão perto, um mais que tudo sempre presente, as tuas mãos em mim junto ao meu peito a sentir o quanto quero ter-te sempre, um lacre, uma fita, uma corrente, esta coisa sempre envolvente que não se vê e só se sente, um fogo imenso e sempre aceso, este sempre que é tudo e é quase nada, são mãos que tenho em mim nas tuas, vida que sinto num só abraço.
 
 

LINHAS SEM HISTÓRIA


 
 
Cada dia que passa vejo menos mãos descobertas.
Andam encolhidas, recolhidas, projectadas em fundos de bolso, traçadas em covas de sovaco, apertadas como ganchos sob cotolos bicudos, pela metade como cotos em mangas puxadas à força para as tapar, ocupadas detrás de máquinas que soam apitos.
Deixei de ver mãos a acenar para mim. A chamarem-me. Até a dizerem adeus naquele leve agitar. Mãos que me tocavam na ponta dos dedos para me acordar do pesadelo. Mãos que içavam a rede do pescado. Mãos com leques, mãos de palmas, mãos abertas, mãos com linhas, mãos com histórias de vida.
 
 

SENTIR-ME PELE




 
Este sentido que me fecha e desenha, relevo dos que de olhos fechados e sorriso leve tiverem dom de querer ter tempo e dor na paciência de me querer saber ler, dei aval de me tocarem e do quente se aquecerem. Arrepiarem-se em mim, que arrepiada o toque do coração mais seiva me deu às palavras.

UM ANO DE SENTIRES



Toquei em todos. Gosto, quero e preciso de todos, seccionados ou mesclados em composição enriquecida pela poesia quero sentir em mim esta vontade bárbara na ponta dos dedos como um formigueiro que se alteia em subterrâneos por escavar. Toca-me e descubro-me.

DO TOQUE DE QUEM DANÇA



Nada na terra se iguala ao toque do par que chora compassos a tempos moídos no relógio do homem. Não há terra, não há. Não há homem nem mulher. Há amantes que falam nas pautas de um doido que um dia olhou a Lua, furou-a no dedo e aprendeu a fazer poesia.

NAQUELE DIA



Não se esquecera daquele dia, aliás muitas das vezes a sensação que tinha é que o tempo houvera estacado naquele dia formando uma barreira entre o até aquele dia e o após. Devía ser porque naquele dia fora verdadeiramente feliz. Nunca soube explicar porquê. Só sabía que quando o coração se angustiava na solidão dos muitos anos passados ou pressentía que a vida se aproximava a passos curtos para ter a última conversa com ele pegava na fotografia e bastava-lhe amornar a mão naquela imagem infantil para tudo se aquietar. E regressava àquele instante de risos e companhia, de palmas e gritos agudos em que o bastante para se dar e receber estava ao alcance do toque. Vamos ser amigos para sempre!